Autismo: governo nacional prepara novo plano para tratamento no SUS
22/08 /2025
Há hoje dois documentos oficiais com orientações sobre o cuidado a pessoas com TEA, que trazem abordagens distintas e até contraditórias
O governo federal trabalha para unificar dois planos que
hoje orientam de forma contraditória o cuidado a pessoas com Transtorno do
Espectro Autista (TEA) no Sistema Único de Saúde (SUS).
O esforço faz parte da elaboração de um novo plano de
cuidado para autismo no SUS, que também deve adotar nacionalmente na rede
pública um serviço especializado já utilizado por parte dos municípios, que
atualmente funciona sem padronização.
Esse serviço é oferecido hoje de forma descentralizada e sem
padronização em diferentes cidades e a ideia é adotá-lo nacionalmente dentro do
SUS.
Segundo integrantes do Ministério da Saúde à par do tema, o
novo plano de cuidado será incorporado ao sistema único ainda neste ano. O
plano terá como foco a qualificação dos profissionais e a integração de
serviços. Parte do esforço também envolve a revisão das diretrizes existentes.
A iniciativa está sendo construída dentro do Departamento de
Saúde Mental e será integrada à Rede de Atenção Psicossocial, responsável por
organizar os serviços de saúde mental no país.
Na prática, o atendimento a pessoas com autismo no SUS é
descentralizado, feito em unidades básicas de saúde (UBS), Centros de Atenção
Psicossocial (Caps) ?€" quando o caso é grave ?€" e serviços ambulatoriais. Os
pacientes também podem ser atendidos em Centros Especializados de Reabilitação
(CER), voltados à reabilitação, mas a distribuição dessas unidades ainda é
baixa.
Falta uniformidade
Há ainda o crescimento de serviços especializados em autismo
organizados de forma independente por municípios e estados, sem uma
padronização nacional. Essa ausência de normativas preocupa o Ministério da
Saúde, já que não há certificação de qualidade nem uniformidade na estrutura e
nos critérios de atendimento: cada local oferta o serviço de maneira distinta.
Uma das metas do ministério, com a nova linha de cuidado, é
justamente integrar esses serviços à rede formal do SUS. O projeto inclui ainda
a formação de profissionais da Rede de Atenção Psicossocial com foco no
trabalho em conjunto com os serviços especializados ?€" e, depois, a qualificação
dos profissionais dos próprios serviços especializados.
O objetivo, segundo integrantes do governo, é garantir
encaminhamentos e diagnósticos mais ágeis, com equipes mais bem preparadas para
lidar com o transtorno.
Além disso, a pasta pretende fortalecer os Centros de
Convivência da Rede de Atenção Psicossocial, espaços voltados ao suporte
psicossocial por meio de atividades como grupos de apoio mútuo, ações
artísticas, atividades escolares e comunitárias. Apesar de esses centros terem
sido regulados pelo governo em agosto do ano passado, até agora, não há nenhuma
unidade em funcionamento no país.
Há hoje dois documentos oficiais com orientações sobre o
cuidado a pessoas com TEA, que trazem abordagens distintas e até
contraditórias. Um deles é o Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa
com Transtornos do Espectro do Autismo, de 2014, que insere o autismo no
escopo da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência (RCPD). Nesse modelo, o TEA
é tratado como deficiência, com foco em terapias de reabilitação funcional
realizadas principalmente em Centros Especializados de Reabilitação.
Já o segundo documento, lançado em 2015, é a Linha de
Cuidado para a Atenção às Pessoas com Transtornos do Espectro do Autismo e suas
Famílias na Rede de Atenção Psicossocial, que orienta o atendimento dentro da
RAPS. Nele, o TEA é compreendido como um transtorno mental, e a recomendação é
que o atendimento seja feito sobretudo em Centros de Atenção Psicossocial. A
pasta trabalha agora na formulação de um novo documento unificado.
Demanda por terapias
O SUS enfrenta hoje grandes filas por terapias voltadas a
crianças e adolescentes com TEA, especialmente nas áreas de fonoaudiologia,
psicologia e terapia ocupacional. Ao mesmo tempo, há escassez de profissionais
qualificados nessas áreas. A dificuldade é reconhecida inclusive por
interlocutores da própria pasta.
Maria de Jesus, diarista de 41 anos moradora do Distrito
Federal, chegou a esperar por atendimento de fonoaudiologia no SUS para o
filho, de 10, por seis meses, relata.
?€" Desde que ele recebeu o diagnóstico (de autismo),
conseguimos terapias no SUS, como psicóloga, mas com muito custo. Ele tem
dificuldade para desenvolver a fala, e ficamos meses aguardando pela primeira
consulta ?€" comenta a mãe.
