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Saúde mental ainda é tabu para pessoas com deficiência no trabalho, aponta pesquisa

11/02 /2026

Saúde mental ainda é tabu para pessoas com deficiência no trabalho, aponta pesquisa

Mesmo com o crescimento dos debates sobre bem-estar emocional nas empresas, falar abertamente sobre saúde mental ainda não é uma realidade segura para muitas pessoas com deficiência e neurodivergentes no mercado de trabalho. É o que revela a pesquisa Radar da Inclusão 2025, realizada pela Talento Incluir em parceria com o Pacto Global da ONU.

De acordo com o levantamento, 77% das pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes empregadas não se sentem totalmente à vontade para falar sobre sua saúde mental com o setor de Recursos Humanos ou com suas lideranças. O dado evidencia um contraste entre o discurso institucional sobre cuidado emocional e a realidade vivida por esses profissionais.

Na prática, ainda faltam ambientes verdadeiramente seguros, acessíveis e livres de julgamentos, especialmente para grupos historicamente excluídos.

Impacto da nova NR-1

O tema ganha ainda mais relevância com a entrada em vigor da nova Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), prevista para maio. A atualização amplia o olhar das empresas sobre os riscos psicossociais no trabalho e prevê notificações para organizações que não cumprirem as exigências.

Para Carolina Ignarra, CEO da Talento Incluir, a mudança representa um avanço importante, sobretudo para pessoas com deficiência.

Segundo ela, a nova norma amplia o conceito de risco no ambiente profissional, passando a considerar também fatores emocionais, sociais e culturais, como:

  • - assédio moral;
  • - discriminação;
  • - sobrecarga emocional;
  • - capacitismo;
  • - ausência de acessibilidade;
  • - invisibilização de competências.

Esses aspectos, antes vistos como parte da cultura organizacional, passam a ser reconhecidos como riscos à integridade psicossocial dos trabalhadores.

Novo papel do RH e das lideranças

Com a atualização da NR-1, as áreas de Recursos Humanos e as lideranças assumem um papel ainda mais estratégico na prevenção do adoecimento emocional e na construção de ambientes inclusivos de forma estrutural.

A responsabilidade deixa de ser pontual e passa a exigir ações contínuas, integradas à cultura da empresa.

Caminhos práticos para promover inclusão

Para apoiar as organizações nesse processo, Carolina Ignarra aponta algumas medidas essenciais, especialmente para a inclusão de profissionais com deficiência:

  • - Capacitar lideranças: treinamentos para identificar riscos psicossociais e promover gestão empática;
  • - Criar políticas anticapacitistas: diretrizes claras contra práticas discriminatórias;
  • - Estimular escuta ativa: canais seguros para diálogo e acolhimento;
  • - Realizar avaliações periódicas: pesquisas de clima e monitoramento emocional;
  • - Garantir adaptações personalizadas: ajustes físicos, comunicacionais e emocionais conforme cada necessidade.

Essas ações contribuem para fortalecer a confiança, reduzir o silêncio sobre sofrimento psíquico e promover pertencimento.

Mais do que obrigação legal

Para a executiva, a nova NR-1 vai além do cumprimento de normas e pode representar uma oportunidade de amadurecimento institucional.

Segundo ela, a segurança emocional é um pilar fundamental para que pessoas com deficiência possam desenvolver seu potencial, sentir-se valorizadas e permanecer nas organizações de forma sustentável.

A pesquisa mostra que, sem ambientes verdadeiramente inclusivos, o discurso sobre saúde mental tende a se tornar superficial. Garantir escuta, respeito e acessibilidade é, hoje, uma condição básica para que o cuidado emocional no trabalho seja, de fato, uma realidade para todos.